Economia e Mercado

A inserção do Brasil nas Cadeias Globais de Valor

[A inserção do Brasil nas Cadeias Globais de Valor]
29 de Maio de 2019 às 07:37 Por: Claudiane de Jesus* e Victor Andreoni* 0comentários

Compreender a ascensão das Cadeias Globais de Valor (CGVs) no mundo é perceber como se acelerou o processo de produção de bens e prestação de serviços, dado a maior abertura dos mercados e maior fluxo do comércio e das finanças internacionais.

As CGVs podem ser entendidas como um conjunto de atividades necessárias à produção e entrega ao consumidor final. As atividades que compõem uma cadeia de valor podem estar contidas em uma única empresa ou divididas entre empresas diferentes.

Esse sistema global de produção propiciou o aperfeiçoamento da divisão internacional do trabalho e da fragmentação internacional dos processos produtivos. Do ponto de vista da divisão do trabalho, observamos a presença da produção em escala, com o crescimento impulsivo do volume de comércio internacional nas últimas décadas.

Pelo lado da fragmentação internacional dos processos produtivos, observamos o estabelecimento de complexas redes de relações e acentuação dos fluxos comerciais e financeiros entre empresas e países, fazendo com que atividades específicas que antes tinham que ser realizadas lado a lado possam ser realocadas e transferidas para lugares distantes umas das outras, graças a avanços tecnológicos, logísticos e institucionais, que permitem tanto transportar rapidamente o resultado das atividades intermediárias, quanto coordenar remotamente todo o processo, estipulando padrões.

É possível compreender esse processo das cadeias globais de valor, ao analisar o valor adicionado do comércio em cada país. Este valor pode ser mensurado através de indicadores criados pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e a OMC (Organização Mundial do Comércio). O primeiro é a parcela reexportada, que compreende a parcela dos bens intermediários que são, num momento anterior, importados e no momento seguinte, re-exportados; o segundo é chamado encadeamento para trás, notado como participações em cadeias globais de valor por meio de importações intermediárias representadas pelas exportações; e por fim, temos o encadeamento para frente, que se refere pelo valor agregado interno nas exportações e demanda final dos parceiros. A soma dos dois últimos fornece uma aproximação do que seria a um índice de participação nas CGVs.

O Brasil apresenta um perfil “menos integrado” dentro das Cadeias Globais de Valor que está associado não somente às dificuldades de participação nas CGV, mas também por ter uma pauta de exportação comodificada, que resulta na inserção de cadeias me produtos primários e extrativistas. 

Nos últimos anos, o Brasil vinha adotando a lógica global dos países, principalmente dos periféricos dependentes, que buscam se especializar em determinadas atividades de produção, visando crescimento econômico, industrialização e tentando se inserir em setores produtivos que estabelecem mais conexões com o restante das atividades econômicas, entretanto, esse processo foi gravemente interrompido com o crescimento econômico e a demanda externa da China.

A relação comercial com a potência asiática resultou na chamada “primarização” das exportações brasileiras, na qual a demanda chinesa alterou o perfil do comércio exterior brasileiro. Esse processo, é importante lembrar, começa na verdade no início dos anos 1990 com a implementação do modelo neoliberal periférico no Brasil, destruindo cadeias produtivas nacionais. Outro fator que interrompeu esse processo de tentativa de inserção brasileira em maiores cadeias globais foi a crise política e econômica que se instaurou no país em 2015, que teve como um de seus efeitos o redirecionamento das empresas nacionais para o mercado exterior.

Segundo a análise dos dados divulgados pela Tiva/OCDE, em 2015 o Brasil ficou em posição inferior em todos os indicadores citados, em relação tanto aos países desenvolvidos como aos em desenvolvimento. Entretanto, na comparação com os valores de 2011, o país apresentou crescimento na maioria dos indicadores, com a exceção do indicador de encadeamento para frente nas CGVs.

Quanto ao primeiro indicador (parcela reexportada), o relatório da OCDE mostra que embora o Brasil tenha aumentado sua parcela de reexportação de bens intermediários importados, em relação ao total de bens intermediários importados, saindo de 16,4% (2011) para 19,3% (2015), este valor se encontra significativamente abaixo da média da OCDE de 38,2% (2015).
O segundo indicador trata do encadeamento para trás na CGVs, ou seja, a parcela de insumos estrangeiros contidos nas exportações local. Nesse sentido, o relatório da OCDE aponta que a parcela do valor adicionado importado nas exportações brutas do Brasil cresceu de 9,7% (2011) para 12,5% (2015). No entanto, o valor adicionado é inferior à média da OCDE que apresentou 20,1% em 2015, ante 23,1% em 2011. Esse resultado é reflexo de um país especializado na produção de matérias-primas e minerais, compondo uma pauta exportadora majoritariamente composta por commodities, o que permite as exportações brasileiras terem valor adicionado doméstico superior ao estrangeiro.

Já o terceiro indicador, encadeamento para frente, ou seja, o valor adicionado brasileiro nas exportações dos outros países em relação ao total das exportações brutas do Brasil, o relatório revela que a essa participação se reduziu entre 2011 e 2015, saindo de 26,1% para 19,6%, respectivamente. Apesar da redução, o Brasil se manteve superando a média da OCDE, que registrou 18,0% em 2015.

De modo geral, o Brasil apresentou alguns avanços na direção de se integrar mais nas cadeias globais de valor, dado o desempenho da indústria. No entanto, essa melhora ainda não foi suficiente para tirar o país da má posição de integração nas CGVs. Vale ressaltar, que em 2015 e 2016 a crise política e econômica que abrangeu o país resultou no egresso de muitas empresas para o mercado internacional, o que provavelmente, influenciou nos resultados dos indicadores.

Assim, para discutir como melhorar a inserção do Brasil nas CGVs é preciso entender as dinâmicas setoriais e as possibilidades de sofisticar as atividades desempenhadas localmente para as cadeias globais – levando-se em conta também as regionais. Além de se fazer necessário um ambiente macroeconômico favorável, uma boa infraestrutura material e institucional, principalmente em um momento que as tendências de internacionalização produtiva estão mudando. Esse cenário é fundamental para discutir um elemento primordial para se pensar em inserção nas CGVs, qual seja: política industrial. Sem isso, o Brasil não terá condições de pensar em forma estratégica e mais dinâmica em sua inserção nas CGVs. 

*Claudiane de Jesus - Graduanda em Economia e pesquisadora do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC), da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

*Victor Andreoni - Graduando em Economia e pesquisador do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC), da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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