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O Conto do Brasil

[O Conto do Brasil]
03 de Junho de 2019 às 06:59 Por: Penildon Silva Filho* 0comentários
“The Handmaid's Tale”, traduzido para o português como “O Conto da Aia” no Brasil e como “A História de Uma Serva” em Portugal é um romance distópico, que encara nosso futuro de maneira sombria do ponto de vista social, cultural, dos direitos humanos, ambiental e político. O livro é de 1985, da autora canadense Margaret Atwood, e ganhou o Prêmio do Governador Geral de 1985 no Canadá, país da autora da obra, e o primeiro Prêmio Arthur C. Clarke em 1987. Esse segundo é um prêmio para obras de ficção científica, o que denota o curioso contexto em que o romance se torna uma interseção entre esse gênero e a discussão sobre regimes políticos, direitos humanos, especialmente das mulheres, e uma discussão sobe o poder político dos grupos fundamentalistas que se expandem no mundo de hoje. O Conto da Aia também foi indicado para o Prêmio Nebula de 1986, para o Prêmio Booker de 1986 e o Prêmio Prometheus de 1987. O livro foi adaptado para um filme (1990), uma ópera (2000) e uma série de TV (2017).

Atualmente essa série baseada no livro conta com grande audiência em diferentes meios de comunicação, e consideramos que seu sucesso se deve muito à similitude com os fenômenos políticos, culturais e sociais que o mundo vive no início do século XX.

 
No romance, os Estados Unidos se tornam uma teocracia, na qual os direitos estabelecidos pela Constituição são substituídos por dogmas religiosos, numa interpretação literal e enviesada da Bíblia. O poder organizado segundo os princípios republicanos da separação entre Igreja e Estado, com o respeito aos direitos civis e políticos, a liberdade de opinião e religiosa, a alternância de poder, a liberdade de organização, tudo isso é substituído pela visão de que o mundo deveria ser “regenerado” com a tradição religiosa cristã, na qual as mulheres deveriam voltar a se restringir ao espaço privado, sem direitos políticos, possibilidade de escolarização ou mesmo de acesso à leitura; os homens voltariam a deter todo o poder para determinar os destinos das famílias.
 
A intolerância, o fundamentalismo religioso, a proibição de outras narrativas fora da religião ganham espaço por meio da violência de milícias armadas que dominam as atividades econômicas e criam o binômio religiosidade fundamentalista e violência social contra os “desviantes”. As pessoas LGBT eram identificadas, perseguidas e executados por enforcamento (são chamados no romance de Atwood de “traidores de gênero”), assim como qualquer um que se atrevesse a questionar o poder dos “comandantes”, os homens no topo da organização social que concentravam o poder político, religioso e militar. As mulheres que se negassem a se submeter às regras dessa sociedade também eram enforcadas por não serem “mulheres de fé”. Essa Sociedade vive sitiada, proíbe a entrada ou saída de pessoas do país, fecha completamente as fronteiras. Os que tentavam fugir também eram perseguidos e capturados para depois serem enforcados no “Muro”.
 
O interessante a notar na obra foi o processo de construção dessa realidade, através do crescimento do número de pessoas que se sentiam inseguras no mundo contemporâneo e criavam uma ilusão sobre um suposto passado tradicional de patriarcado e fusão do poder político com a religião. O processo de “doutrinação” que antecede o golpe das milícias machistas, homofóbicas e misóginas foi se constituindo com a mensagem de intolerância aos direitos das mulheres, aos diferentes, ao mundo plural em que vivemos. O nazismo também lançou mão de esforço muito parecido antes e durante a ascensão de Hitler, denunciava a “degeneração” da sociedade, criticava a arte contemporânea e os costumes mais liberais, assim como uma cultura mais civil, tolerante, multiétnica e culturalmente diversa.

O medo do diferente, da miséria, das nações estrangeiras e dos infiéis cimentou o ódio no nazismo, conduzindo a sociedade alemã a um regime totalitário que identificou a nação com raça, perseguiu judeus, ciganos e homossexuais. De forma análoga, o “Conto da Aia” é uma ficção ou antecipação de que todos os que fossem diferentes ou que discordassem da opinião do grupo que se propunha a purificar a nação deveriam ser exterminados. O discurso do líder enviado, do messias, do abençoado para fazer as mudanças necessárias e violentas na sociedade servia para destruir os opositores e a ideia de sociedade civil plural, de alternância de poder e do próprio liberalismo político. O liberalismo político é deixado de lado pela política do ódio.

 
Ironicamente, a ponto de virada no romance de Atwood foi quando o grupo que pregava o medo e o ódio visando uma sociedade “purificada” e tradicional se tornou hegemônico, e isso ocorre quando a grande propagandista da volta da mulher à vida doméstica, com a retirada de todos os seus direitos, a mulher do comandante Fred Waterford, a Serena Waterford sofre um atentado, e se forma todo um discurso de ataque aos “terroristas” para justificar o fortalecimento das milícias e a perseguição aos seus opositores. Na Alemanha sob o comando do primeiro ministro Hitler sabe-se hoje, com bastante documentação, como o Parlamento Alemão - Reichstag foi incendiado criminosamente pelas milícias ou grupos paramilitares nazistas e a culpa foi colocada em um militante comunista. Essa versão serviu de pretexto para o estabelecimento de um regime de exceção e a perseguição a todas as correntes políticas contrárias ao regime que se tornou uma ditadura.
 
No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 contaram também com sua cota de mobilização emocional em torno de atentados, forte propaganda e militância com perfil violento, que aliava também um discurso messiânico, militarismo, fundamentalismo religioso com ameaças e casos de agressões contra mulheres, homossexuais e negros que se contrapusessem ao projeto de purificação messiânica que saiu vitorioso da disputa. Esse projeto não é brasileiro, no mundo há regimes e correntes políticas que se afinam nesse mesmo sentido, como Donald Trump nos EUA, o  primeiro-ministro da Hungria Viktor Orbán, os partidos de extrema direita na França, com Marine Le Pen, e na Alemanha, com o ressurgimento do nazismo, do primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, ou o governo italiano que conta com um ministro do interior claramente xenófobo que prefere que os refugiados que atravessam o Mediterrâneo sejam deixados à própria sorte no meio do mar.
 
O que unifica e identifica esses líderes tem muito de parecido com a obra de ficção de Margaret Atwood, que na verdade antecipa um movimento cultural e político no mundo: a intolerância com os opositores políticos, o uso do discurso religioso para reunir apoiadores com uma retórica preconceituosa, o ataque aos direitos humanos, o conservadorismo do machismo que se vê ameaçado pelos direitos das mulheres e pela visibilidade da comunidade LGBT, um desprezo pelas instituições democráticas e pela política como instrumento para resolução de conflitos. A política vem sendo desacreditada, atacada, ridicularizada como se fosse sempre corrupta. Grande parte do sistema judicial/Ministério Público/policial e a mídia se ocupam de desconstruir as instituições constituídas e aperfeiçoadas desde a Revolução Francesa com o Estado moderno.
 
Ao mesmo tempo, se usa o discurso do medo para justificar e ganhar apoio à “política da lei e da ordem”, do encarceramento, da violência policial e do desprezo aos direitos constitucionais. A sociedade do medo reclama a submissão das pessoas à autoridade que não precisa de controles ou fiscalização, à militarização, à forte hierarquia sem questionamentos, e a guerra a determinados grupos ganha terreno onde deveria haver uma política de fortalecimento dos laços sociais.
 
Um elemento que coroa esses princípios e modo de agir é o ataque às universidades, à Educação, à Ciência, à Cultura, ao pensamento crítico, aos artistas. Esse campo dos educadores, dos cientistas, artistas e jornalistas críticos é visto como parte do esquema que provocou a “decadência da sociedade”, e agora um regime forte, autoritário, designado e legitimado pelo poder religioso e pelo poder policial/militar/judicial deve expurgar as pessoas ligadas à Ciência, à Cultura e às Artes. Estamos num momento em que se defende a revogação de diretrizes curriculares que estabelecem o respeito à diversidade religiosa, cultural e de orientação sexual; um momento em que o presidente se compromete com uma convenção religiosa a indicar um ministro do STF com critérios religiosos para evitar que se tenham decisões como a criminalização da homofobia.
 
Vivemos um momento em que as universidades têm os recursos contingenciados em parte e tornados indisponíveis em outra parte, e caso essa situação não mude as instituições responsáveis por 95% das pesquisas no país não terão como terminar o ano.

Um momento em que o presidente da república reproduz um vídeo no qual um pastor evangélico descreve o próprio presidente como um enviado de Deus e ele concorda com isso e afirma que a sua eleição foi um milagre e que ele tem uma “missão a cumprir”. Lógico que quem se coloca contra um enviado de Deus deve ser castigado com os rigores do Antigo Testamento. Talvez o pior de tudo é que vivamos um tempo em que frases como a que foi usada acima, “deve ser castigado com os rigores do Antigo Testamento”, são entendidas de forma literal e muitos não compreendem que se tratou de uma ironia, e talvez comecem a concordar com o autor desse texto sem perceber que o mesmo estava justamente se colocando de forma contrária ao entendido literalmente.

 
Autoridades governamentais desacreditam consensos científicos como o aquecimento global, o Heliocentrismo, o fato de que a Terra é uma esfera ao invés de plana, a teoria da Evolução de Darwin. Ao mesmo tempo, essas mesmas autoridades caracterizam as universidades como espaços de “balbúrdia, de orgia, de subversão”. Faz parte dessa onda conservadora uma grande dose de anti-intelectualismo, de anti-Ciência, de aversão ao estudo, ao método científico, à observação sistemática, à busca da verdade. O sentimento antidemocrático e autoritário é avesso à Ciência e ao pensamento crítico.
 
Da mesma forma que Galileu foi perseguido pelas autoridades religiosas da sua época e que Darwin foi muito combatido no século XIX, ainda hoje os autoritários são também afeitos à intolerância e à ignorância. Esperamos que a Primavera da Educação, que começou com as manifestações de estudantes, pais, educadores e pessoas em geral, possa trazer de volta ao debate público uma racionalidade e a valorização da patrimônio cultural e científico construído de forma tão árdua no Brasil.

*Professor da UFBA
Doutor em Educação
E-mail:silvafilhopenildon@yahoo.com.br

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