Entrevista

Coordenador de campanha de Herzem defende suspensão de pesquisas e chama Rui de medíocre e arrogante 

[Coordenador de campanha de Herzem defende suspensão de pesquisas e chama Rui de medíocre e arrogante ]
28 de Novembro de 2020 às 18:48 Por: Pedro Vilas Boas*

O historiador Nilton Júnior, coordenador da campanha do candidato à reeleição em Vitória da Conquista, Herzem Gusmão (MDB), não vê com bons olhos a divulgação de pesquisas de intenção de voto. Para o professor, que também é mestre em Sociologia e doutor em Antropologia, os levantamentos manipulam a opinião pública. 

Durante a entrevista ao BNews neste sábado (28), véspera da realização do segundo turno, o historiador também criticou o governador da Bahia, Rui Costa (PT), a quem direcionou classificações como “medíocre” e “arrogante”.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

BNews - Como foi coordenar uma campanha em meio à pandemia? 

Nilton Júnior - Foi uma experiência inovadora. A pandemia provocou uma ausência significativa do principal elemento, que é o povo na rua. O povo na rua não pôde participar da campanha desta vez, a não ser dentro de casa. Tanto nós, quanto os adversários, recorremos as carreatas. Com isso você ver uma grande atenção dada aos meios de comunicação. As pessoas se informaram muito mais através das TVs e mídias sociais, do que normalmente fariam. 

A tradição dos grandes comícios, caminhadas, corpo a corpo, ficou para trás. A tradição política do interior principalmente teve que se reformular. Por outro lado, a própria pandemia se transformou em catalisador de destaque na campanha. Cada candidato teve que apresentar outras coisas ao portfólio com o fenômeno da pandemia. Isso aqui tá tendo peso bastante significativo, porque tivemos um desempenho bastante produtivo, a gestão da crise foi muito eficiente. 

BNews- O que vocês tiveram que alterar no planejamento da campanha quando as medidas contra o coronavírus foram deflagradas?

NJ - Na verdade, a gente acabou não mexendo em muita coisa, não mudou muita coisa do que já vínhamos fazendo. Quando a pandemia começou, a eleição era um evento remoto. Claro que sabíamos que o prefeito se candidataria, mas, salvo alguns poucos profissionais muitos dedicados que vivem disso, a maioria não levava isso em consideração.

Por outro lado, Conquista se adequou ao cenário pandêmico com muita facilidade. Assim que houve decretação do isolamento social, que foi proibido o acesso aos pontos comerciais sem máscara, a população aceitou com muita facilidade. É bem típico do conquistense. As coisas são “emplacadas” com facilidade. 

"Na verdade, não entramos em polêmica com Rui, ele que entrou conosco."

BNews - Na propaganda eleitoral de Herzem, vocês não fizeram críticas diretas a Zé Raimundo. Escolheram exaltar supostas conquista da gestão. Por quê? 

NJ - Isso. Foi uma opção consciente. O prefeito é eleito pra cuidar da cidade. A eleição municipal, que é uma tradição que nem a ditadura interrompeu - com todas as restrições ao debate - , é uma tradição de eleger prefeitos que tem muito a ver com a personalidade da comunidade e com nossa história pregressa em relação aos gestores. 

Foi uma opção natural apresentar à cidade o acervo do prefeito, levando em consideração que ele sucedeu a um círculo vinculado a um projeto nacional que é estranho à realidade local. Conquista foi atrelada nos anos do PT a projetos e interesses estranhos pra cidade. Conquista, apesar de ter uma  tradição de disputa eleitoral intensa, por outro lado, os ânimos não passavam de um nível civilizado. Isso foi trazido por essa era petista desde 1997. 

O que tá sendo julgado é a candidatura de um prefeito que tá identificado com a cidade e um projeto que foi implantado aqui em nome de outros objetivos.

BNews - Vocês não ficaram preocupados com a popularidade alta de Rui Costa em meio ao conflito que Herzem entrou com o petista sobre o modo como cada um deles lidou com a pandemia? 

NJ - Na verdade, não entramos em polêmica com Rui, ele que entrou conosco. Rui entrou em polêmica conosco, e fez isso pela maneira que ele conduz, por exemplo, a relação com os professores estaduais. Ele é um gestor arrogante e político medíocre. Grande parte da suposta popularidade que ele tem se deve aos adversários. O campo de oposição é bastante deserto. Agora, com ACM Neto, que ele está tendo que lidar com isso. 

Mas há um vácuo, e quem cresce em vácuo não cresce porque é bom. Conquista não é tutelada por governador, nunca foi. Nós aqui temos capacidade de lidar com as questões de urbanidade que é muito notável. 

Inclusive, nenhuma ação relacionada à campanha foi pautada por qualquer outra conveniência que não fosse da campanha. E as medidas que o prefeito adotou foram adotadas independentemente da campanha. 

"Eu tenho restrições muito grandes a pesquisas, inclusive ela sendo usada como marketing político"

BNews - Qual o saldo que você faz da campanha? Conseguiu cumprir os objetivos?

NJ - Esta campanha, na minha opinião, foi um divisor de águas. No passado tivemos o desembarque em massa das redes sociais subvertendo o debate político. Você tinha um candidato que, na prática, era “dublê” do outro, e do outro lado um candidato completamente desprovido de projeção nacional, não tinha um projeto sequer de País. Tudo isso foi consequência direta das redes sociais. 

Esta eleição municipal “baixou a bola”. As redes foram importantes, mas foi uma eleição muito mais realista. Os eleitores têm tido cautela de tomar decisão para situações que melhorem seu cotidiano. Mas ficou muito evidente, como aconteceu aqui, que a população está preocupada em se ater a gestões que tenham capacidade de resolver demandas objetivas. Esse é o perfil de Herzem. O que temos aqui,hoje, é o saldo dessa decisão. As pessoas estão votando em função do que seja melhor pra elas. 

Por outro lado, você tem uma série de problemas que são causados pela gestão pública do Brasil. Sempre é mais fácil investir em paisagismo, do que em prestação de serviços, por exemplo. Os prefeitos muitas vezes são julgados injustamente em função de sua incapacidade de articular alianças políticas que custam dinheiro e autonomia política. 

Temos também uma vulnerabilidade muito grande a um voto “clientelista”. Ele ainda se faz presente, embora seja uma cidade muito mais moderna. Nossa campanha foi produtiva, fomos citar “PT” só em 8 de novembro, na véspera do aniversário da cidade. Até ali não tínhamos citado a palavra “PT”. Todos os outros [programas] tinham ignorado o PT, não desprezando a relevância. Teve muita coisa que não deu pra fazer, tentei dar conta de tudo. Não consegui mostrar o tanto que tem sido feito sobre geração de emprego.

BNews - Qual sua opinião sobre as pesquisas de intenção de voto? Levando em consideração, que, tanto a equipe de Herzem quanto a de Zé Raimundo, conseguiram suspender a veiculação de pesquisas.

NJ - Influencia negativamente porque trabalha na deseducação do eleitor. Eu tenho restrições muito grandes a pesquisas, inclusive ela sendo usada como marketing político. Quando as pesquisas tem relação com a Presidência, governo do estado, só balizam ações públicas. Mas dentro de um espaço restrito como é o município, você acaba servindo como “jardim de infância” pra “picaretas”, que alimentam defeitos na cultura política que são perigosos para a população. 

O “voto útil” significa renunciar ao voto consciente. Já tá mais do que evidenciado que a Justiça eleitoral brasileira não dá conta de fiscalizar tudo que acontece na eleição. O TSE sofreu ataque hacker no dia da eleição.

*Repórter enviado a Vitória da Conquista para cobertura do segundo turno

 

Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Compartilhar